POR UM BLOCO DE ESQUERDA NÃO EXCLUDENTE

Sou um homem comum
Qualquer um

Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto
A guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um

Ninguém é comum
E eu sou ninguém

No meio de tanta gente
De repente vem
Mesmo eu no meu automóvel
No trânsito, vem
O profundo silêncio
Da música límpida de Peter Gast
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Peter Gast
O hóspede do profeta sem morada

O menino bonito, Peter Gast
Rosa do crepúsculo de Veneza
Mesmo aqui no samba-canção do meu rock’n’roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Sou um homem comum

No meio de tanta gente
De repente vem
Mesmo eu no meu automóvel
No trânsito, vem
O profundo silêncio
Da música límpida de Peter Gast
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Peter Gast
O hóspede do profeta sem morada

O menino bonito, Peter Gast
Rosa do crepúsculo de Veneza
Mesmo aqui no samba-canção do meu rock’n’roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Sou um homem comum

Peter Gast (Caetano Veloso)

O meu partido não tem pretensas paredes de vidro, tem janelas com cortinas numa disposição de vermelho, de multicolor, por vezes compondo um arco-íris. Gosto do que essas cortinas representam, mas reconheço que por vezes são demasiadamente opacas e impedem que entre pouca luz para o interior.

Escrevo na primeira pessoa, pensando, inicialmente, que pouco mais posso acrescentar ao que Jorge Martins expõe anteriormente aqui no seu excelente artigo de 28 de novembro “O Bloco Putinizado”. Mas posso, sim.

Para já, o próprio Caetano Veloso fala de Peter Gast, uma sua canção com cuja letra introduzo este texto: “É sobre um sujeito que foi importante na vida de Nietzsche. Quando li, anos atrás, o livro de Daniel Alevy sobre Nietzsche, e que é muito bonito, fiquei fascinado pela personalidade de Peter Gast. Fiquei sabendo que ele foi músico e compositor a vida toda, que foi morar em Veneza e foi um amigo que, até o fim, não abandonou Nietzsche, que foi ficando louco e era intratável.

Mas o trabalho de Peter Gast não ficou, ele não produziu nada de importante como músico e que o fizesse conhecido por isso. Peter Gast era como Nietzsche o chamava.

O nome dele era Heinrich Köselitz. Gast quer dizer o hóspede, ou o visitante, ou o convidado. (…)[1]

A solidão e o não reconhecimento de Peter Gast pode ter similitude com a de qualquer militante de um partido político quando ali verifica a sua presença hospedada, mas não gratificada de alguma forma. Todo o quadro de défice de democracia interna no Bloco de Esquerda descrito por Jorge Martins, impede e anula os contributos e opiniões dissonantes com fações instaladas no aparelho partidário. No Distrito do Porto, onde milito, nas assembleias de militantes e reuniões da Coordenadora Distrital nas quais tenho participado, sempre um dirigente abre os trabalhos para depois os encerrar. Quem o faz, tem assim oportunidade de invalidar, reduzindo-as a supostas sandices, todas as críticas ou o pensamento não formatado nos cânones oficiais internos. No entanto, persiste-se, resiste-se pacientemente, com a vontade firme de ser contributo para uma alternativa de esquerda a políticas e situações que têm balanceado no sentido de um agravamento dos problemas sociais. Alternativa que se quer através do Bloco de Esquerda.

O Bloco de Esquerda bem mostrou a sua importância política ao longo de uma história de mais de duas décadas, propiciando soluções para os problemas sociais, desfazendo amarras na vida das pessoas, apontando para uma maior equidade. Porém, após recentemente ter sido varrido da Assembleia Legislativa da Madeira, de ter arrastado a sua candidata à Presidência da República para uma saliente derrota e de ter infaustos resultados nas eleições autárquicas, não se vislumbra por parte da atual direção a intenção de unir o partido e de aproveitar todas as contribuições, na sua diversidade, para o fortalecimento do Bloco, para a obtenção de necessários bons resultados eleitorais.

Vivemos agora um momento em que não é mesmo possível fazer futurologia para a cena política portuguesa. Mas com a recente vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD, pode-se, contudo, cogitar que uma solução governativa PS/PSD, seja de que modo ela for, é exequível e que a extrema-direita tudo fará para ter mais numerosa representação parlamentar e peso político. Por isso, agora e definitivamente, a reflexão e a participação efetiva de todas e todos militantes do Bloco de Esquerda na sua multiplicidade, é importante e não pode ser impedida por zonas restritas.

Que não se diga dentro do Bloco de Esquerda “eu sou ninguém”, que não sejamos, de todo, um partido algo obscuro. A diversidade de opiniões e o diálogo podem levar a caminhos certos. A dissenção pode levar a uma sequência negativa que não deixará de ser notada e castigada (já o foi) pelo eleitorado, não produzindo algo de profícuo para a vida das pessoas.  

[1] http://caetanoendetalle.blogspot.com/2012/09/1983-peter-gast.html 

* Alberto Guimarães

Um pensamento sobre “POR UM BLOCO DE ESQUERDA NÃO EXCLUDENTE

  1. Tudo o que posso dizer é que te acompanho, camarada.

    Também eu gostei e concordei com o que escreveu Jorge Martins.

    Até amanhã, camarada(s), Domicília

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