Colapso, colapso, colapso… *

Todos conhecemos a história de “O pequeno pastor e o lobo”. Hoje, todavia, são os lobos que têm que ser protegidos, dada a sua enorme importância para o equilíbrio da biodiversidade e para evitar a proliferação de pragas ou de espécies que atingem patamares de ruptura.

Hoje, o grito de “vem aí lobo!” deveria merecer activismo para o proteger… do colapso.

Daí o título. Sabemos, já há manuais sobre o tema (colapsologia) que nos dizem:

1 – O crescimento físico das nossas sociedades, o crescimento, vai ser detido inexoravelmente num futuro, cada vez mais próximo (haja “bazucas”, ou voltemos aos pauzinhos);

2 – Alterámos o sistema terrestre de formas irreversíveis (pelo menos na escala do tempo humano) e sem possibilidade de retorno;

3 – Caminhamos para um futuro de grande instabilidade em que as grandes alterações, imprevistas, radicais, serão a norma, cada vez mais constante;

4 – A partir de agora, seja por efeito das interacções da situação actual, seja pela continuação da actual lógica deste modo de produção, podemos assistir a colapsos sistémicos globais.

E já tudo foi dito sobre o episódio de Glasgow, que não merecerá uma linha a futuros historiadores, a não ser pelo fracasso que representa. O sistema que nos trouxe até aqui não consegue tirar-nos desta crise. Só o dinheiro conta, a ânsia do lucro infinito promove a predação e a irracionalidade infinitas.

Sabendo que, já em 2018, textos do Painel Internacional sobre Alterações Climáticas (IPCC) davam como altamente provável o aumento de 3º C até final do século, e que haveria que reduzir, reduzir, repetimos, as emissões em 7,6% ao ano durante 10, dez anos, e mesmo assim as hipóteses de ficar abaixo do aumento de 2º C seriam só de cerca de 30%.

E numa altura em que se faziam promessas de acção sobre o clima, simultaneamente solicitava-se aos países árabes que aumentassem a produção do dito ouro negro e defendia-se a plantação de bosques com risco de destruição de ecossistemas vitais e protegidos por convenções internacionais (da Biodiversidade), assim como se promovia os biocarburantes que aceleram a desflorestação e colocam em risco a segurança alimentar ou se perspectivam mais, mais minas colocando em risco a saúde de populações, destruindo sistemas produtivos tradicionais e continuando a lógica económica produtivista, mais, mais, mais sem sequer equacionar outra coisa.

Se a nível global o caminho do colapso parece irreversível, por aqui e ali vão surgindo sementes de esperança (por que razão não se chamou “semente” à tal “bazuca”, isso é desde logo um programa). Sabemos que o abutre negro voltou a nidificar no Alentejo. Sabemos que autarquias e organizações sociais se envolvem em ou com comunidades de energia. Sabemos que sectores económicos articulam novas lógicas de construção e recuperação de edificado com uso de recursos endógenos e novos materiais e que se vai fazendo caminho, em linha com os conceitos de Gonçalo Ribeiro Telles, tão louvado e tão desprezado pelos poderes reais, numa gestão da urbe com o “saltus”. Sabemos que aqui e ali pequenos produtores, sectores industriais, grupos de cidadãos se mobilizam em defesa do seu, do seu passado, da sua comida, dos seus referentes e tradições em articulação com movimentos há muito existentes de defesa do biodiverso.

Muitas, muitas sociedades humanas, localmente colapsaram, devido a diversos factores, de alterações climáticas, a introdução de novas culturas, a exaustão dos seus recursos por actividade predatória. Muitos, todos aliás, impérios ruíram. Neste momento, salvo por aqui e por ali, estamos a caminho do precipício, num veículo sem travões e a alta velocidade, e o condutor não sabe, ou não quer, usar as mudanças. Ainda iremos a tempo? Vamos meter um pauzinho na engrenagem? O esforço insubmisso pode compensar.

Dir-se-á que o lobo continua a ser caçado (na Ibéria!) e que continuamos a ser esmagados pelo rolo compressor da nomenclatura que alapou o sistema político (inacreditável que continuemos a votar da mesma forma há 45 anos, sem que se tenham dado conta das alterações sociológicas e do desejo diverso de representação, que se depara com um enorme vazio que, a não ser mudado o sistema, nem partidos vaziados lhe darão vida) e que em articulação com o totalitarismo de um sistema económico sem liberdades sérias (não há qualquer indexação dos preços com relação com o trabalho e o desperdício, de recursos e de natureza), onde os monopólios são árbitro, jogador e também, através do condicionamento de massa, os jogadores.

Muitas, muitas sociedades humanas, localmente colapsaram, devido a diversos factores, de alterações climáticas, a introdução de novas culturas, a exaustão dos seus recursos por actividade predatória. Muitos, todos aliás, impérios ruíram. Neste momento, salvo por aqui e por ali, estamos a caminho do precipício, num veículo sem travões e a alta velocidade, e o condutor não sabe, ou não quer, usar as mudanças. Ainda iremos a tempo? Vamos meter um pauzinho na engrenagem? O esforço insubmisso pode compensar.

* António Eloy e Pedro Soares

[Artigo publicado originalmente no Público]

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