Mário Tomé – intervenção de encerramento do Fórum Ecossocialismo 2021

Na actual crise do neoliberalismo persiste uma grande dificuldade em mobilizar a sociedade do “estado social” desiludida com os resultados e aprisionada na rede de desinformação, com amplos sectores mobilizáveis para respostas irracionais e totalitárias, a denominada extrema direita.

Todavia, nunca como hoje se conjugaram as condições para a denúncia e demonstração do carácter predador e irracional do capitalismo com a capacidade material de transformação radical da sociedade, ou seja da percepção e consciencialização da necessidade da revolução social.

A pandemia ao libertar durante cerca de um ano o planeta da pressão da produção capitalista, ou seja do crescimento para acumulação infinita do lucro, pôs a natureza a respirar mostrando que a humanidade ainda pode salvar-se, se se consciencializar que é parte integrante da natureza e não a violadora irracional do seu equilíbrio.

Na fase actual da crise do sistema capitalista neoliberal e da financeirização da economia, o papel principal do Estado, assegurada uma hegemonia ideológica sem precedentes – que poderiamos alcunhar de alienação global e repressão consentida – é o da garantia da credibilidade da dívida e, portanto, a garantia do crédito como motor principal do funcionamento do sistema.

A luta dos trabalhadores contra a exploração, transformada já em extorsão violenta, tem dificuldade em extravasar do seu âmbito próprio para a sociedade em geral nomeadamente para as classes apelidadas de médias cuja diferença pouco mais que irrisória de condições de vida lhes dá a ilusão de uma posição diferenciada e, do mal o menos, deixando que prevaleça, para o restante proletariado, a velha consigna “para quem é bacalhau basta”.

Daí a importância de movimentos de base fora, mas não contra, as instituições tradicionais e burocratizadas de organização dos trabalhadores.

Como a plataforma “trabalhadores atacados não podem ficar isolados” que nasceu da necessidade de resposta imediata à brutalidade do programa de reestruturação do capital pós-pandemia, objectivado na  bazuca da Comissão Europeia, chamada PRR e já materializada no programa de despedimentos que teve as suas vítimas iniciais na TAP, na GALP, na EFACEC, na poderosa banca, tendo no governo o seu mordomo.

O movimento ecológico que se desencadeou a nível mundial, nas condições actuais deve ser entendido como um suporte global da luta revolucionária para liquidação do capital e salvação da humanidade. Como refere Nancy Frazer  esta luta «não depende apenas das lutas entre “trabalho” e capital no momento da produção, mas também das  lutas sobre os limites da dominação de género, da ecologia, do imperialismo e da democracia, sendo igualmente importante esta última agora aparecer sob outra luz – como lutas no, ao redor do e, em alguns casos, contra o próprio capitalismo. Se elas se compreenderem nestes termos, estas lutas podem de facto cooperar entre si ou unir‑se».

De grande importância é o facto de o movimento contra as alterações climáticas de milhões de jovens a nível mundial  já ter percebido, como sinaliza a sua iniciadora, a jovem  Greta Thünberg, aquilo que os democratas e socio-liberal-democratas fingem não ver: as alterações climáticas não poderão ser travadas nas condições do modo de produção capitalista.

Isso quer dizer que a consciencialização das amplas massas tão necessária para a luta revolucionária pelo ecossocialismo, nos tempos de hoje, pode estar em marcha pelo lado mais frutífero e decisivo: a juventude.

Nos tempos de hoje, único estadista mundial decente, o Papa Francisco, é um grande aliado para esta luta como tem sublinhado, enfaticamente, Michel Löwy.

Dentro de dois anos Francisco vai juntar milhões de jovens em Lisboa.

Uma associação virtuosa entre esse movimento católico e o movimento ainda inorgânico iniciado pela caturrice inspirada de Greta Thünberg pode, certamente, potenciar o movimento ecossocialista.

Com as lições aprendidas na história após a publicação de «O CAPITAL», sobre as engenharias sociais, sobre as leis burocráticas da economia e do Estado, sobre as formas pré-determinadas pelos politburos de construção das sociedades socialistas, sobre as ideologias socialistas e as  vanguardas e ideologias proletárias, tão eficazes e tão destruidoras da revolução como a ideologia da sociedade burguesa imperialista, uma visão do movimento social na construção da sociedade ecossocialista é possível em traços largos e não deterministas como tem feito aliás Michel Löwy.

Mas, entretanto, levanta-se a questão nuclear, a questão de sempre:

Como vislumbramos a luta revolucionária contra o capital?

Temos claro que só pode estar orientada para o ecossocialismo. Não há plano B.

Mas como, para além da consciencialização da massa na luta e através da apropriação do conhecimento, que lhe é organizadamente sonegado, se enfrenta o poder global da finança que tem os Estados nacionais como mordomos?

A globalização imperialista não é apenas uma consequência do funcionamento da economia financeirizada na fase actual do neoliberalismo, mas também uma imposição do desenvolvimento das revoluções científicas.

O capital vai afirmando que o desenvolvimento tecnológico sem limites será a salvação da catástrofe que ele próprio cria!

Mas o desenvolvimento tecnológico, como sublinhou Walter Benjamim,  «para além do progresso das ciências naturais, leva à regressão social, é destrutivo e coloca na primeira linha a técnica da guerra e sua preparação pela imprensa [ ou seja a comunicação social]» que, ao mesmo tempo, como afirma Karl Kraus, a mostra como espectáculo.

A compreensão do mundo em que vivemos e a perspectiva de  uma sociedade nova e de  como transformar a actual devem tanto ou mais ao mundo da arte e da cultura que ao mundo da ciência. É, aliás, o conhecimento científico, do ser humano e da natureza que sustenta as bases da ética e da justiça, pilares da transformação revolucionária ecossocialista.

O surgimento de um amplo movimento ecossocialista terá em conta que os grandes negócios hoje são à escala global e que  a finança já não conhece limites de espaço ou de tempo; e que a revolução técnico‑científica sob o capitalismo imporá uma exploração e gestão geral dos recursos do planeta centralizada e coordenada globalmente o que, num futuro mais ou menos distante vai exigir um poder planetário unificado.

Ou esse poder será radicalmente democrático com o domínio da inteligência artificial e suas derivadas pelos cidadãos e cidadãs que impuseram um outro modo de produção em que se respeitam os limites da intervenção na natureza e em que o trabalho equivalerá a actividade lúdica e artística, portanto o ecossocialismo, ou a humanidade ficará aprisionada num fascismo tecnológico global.

A luta pelo ecossocialismo será um processo mais ou menos longo de enfrentamentos com a violência e a brutalidade do Estado de direito do capital. Será um processo de superações parcelares e sucessivas do domínio da burguesia que passará muito provavelmente pela imposição de um Estado a que se poderia chamar complacente, despojado sucessivamente, pela luta social, do poder repressivo na sustentação dos negócios da dívida.

Essa luta tem de começar já pela confrontação do plano do capital que quer aproveitar a urgência de travar as alterações climáticas para impor a conversão energética à custa dos trabalhadores.

A luta pelo clima não pode ser feita sem e contra os trabalhadores, mas sim garantindo e organizando a sua conversão numa base de “pleno emprego”.

A política definida pela luta e unidade dos trabalhadores ganhando posições dominantes nos diversos sectores da sociedade – a experiência do nosso PREC é uma referência, apesar das diferentes condições, naturalmente em que articulação solidária dos trabalhadores a nível internacional se impõe ao poder e às manobras das grandes multinacionais e transnacionais, em que os instrumentos jurídicos e repressivos dos estados são paralisados, etc.

Terá de ser, de facto, uma virose total e global. Pandémica, já agora.

A base do funcionamento das sociedades e único factor determinante é a economia O resto pertence à filosofia e à política. O objectivo final da revolução é, portanto, o apoderamento do funcionamento da economia pelos trabalhadores passando, naturalmente, pela conquista do poder político que se exercerá pela democracia directa em articulação com um sistema de representação por aquela condicionado.

O poder só é revolucionário se pertencer às massas; como Marx alertou se a abolição geral da propriedade privada for feita apenas politicamente, os revolucionários virão a ficar surpreendidos perante a sua fatal reversão. Como aliás a história demonstrou.

O movimento ecossocialista confronta a lógica do capital decorrente da sua natureza que para o lucro infinito exige o crescimento infinito num sistema finito que é aquele em que vivemos; o sistema planeta Terra.

O ecossocialismo é a esquerda do presente e do futuro que luta pela articulação dos combates em defesa de quem trabalha e da salvaguarda dos equilíbrios ecológicos e ambientais. O ecossocialismo é a superação do modo de produção capitalista.

“O caminho faz-se caminhando” e o que nos faz caminhar é a utopia que não é… “utópica” mas um chamamento fundamental à acção revolucionária, ou seja integrar a sociedade e o ser humano no ciclo infinito e harmonioso da natureza, como há século e meio preconizava Karl Marx!

É assim o ecossocialismo. É este o caminho que caminhamos, no presente e para o futuro.

Mário Tomé

Porto, 9.out.2021

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