Pode o feminismo materialista fugir ao confronto da colonialidade? *

Os movimentos feministas têm uma longa e controversa história que já percorreu mais de um século. São atravessados de pluralidade e algumas contradições, como não poderia deixar de ser, pois o grupo social mulheres é constituído por outras hierarquias sociais, por ex., de classe social, de racialização, de orientação sexual, de capacidade, entre outras. Por isso, muitas/os de nós designamos no plural para dizer dessa diversidade.

As contradições no seio dos movimentos feministas têm conduzido ao debate e produção de conhecimento muito úteis para planear ação, agir e avaliar os resultados. Se, nos finais do séc. XIX e transição para o XX, foi necessário estabelecer a categoria mulher, para mostrar que “o segundo sexo” (como dizia Simone de Beauvoir) se constituiu através da construção social a partir das aparentes diferenças biológicas, nas décadas de 1970-80 (em Portugal), o foco dos debates foi dirigido para dois eixos: as sexualidades e a divisão de classes. As feministas, ativistas e téoricas, confrontaram aquela visão singular A Mulher, confrontaram a ideologia liberal que pretende esconder as desigualdades de classe social e a exploração capitalista. Produziram acerca da exploração específica das mulheres sob o capitalismo e dissertaram e discorreram em torno das ligações, articulações e complementaridades entre o capitalismo e o patriarcado. Escreveram e mostraram que trabalho doméstico é trabalho — e este debate fez corer bastante tinta — embora não produzindo valor de troca, produz valor de uso e é essencial à exploração capitalista não apenas para a reprodução social e biológica, mas também para a reposição diária da força de trabalho, aliás, como já tinha sido levantado por Marx.

Acrescentaram ao debate o confronto à heterossexualidade obrigatória, sobretudo assegurada pela família e pela hipocrisia em torno da sexualidade, como mecanismo de disciplinação de corpos e desejos, defendendo, pelo menos a corrente mais radical, aquilo que designávamos como lesbianismo político.

Neste caminho de ação política e de pensamento, ficou evidente, para muitas/os de nós, que o capitalismo patriarcal tirava proveito não apenas da destruição cíclica de modos de sobrevivência e concomitante desvalorização do valor do trabalho, mas também dos seviços sexuais (exploração mais ou menos legitimada por instituições como a família).

Todavia, só mais recentemente e com a afirmação do feminismo negro, as marcas do colonialismo começaram a ser confrontadas. E se, hoje, as feministas negras designam de eurocêntricas certas análises feministas, têm toda a razão.

Embora a administração colonial tenha “largado” os territórios colonizados, essa mudança não alterou a construção de séculos de visões do mundo eurocentradas e na base da hierarquização de seres humanos pelas aparentes diferenças físicas.

Quando, na década de 1980, denunciávamos a violência machista, em qualquer debate, logo alguns homens vociferavam que éramos lésbicas e anti-homem. Percebemos, assim, como esses homens se sentiam pertencentes a uma fraternidade masculina, que, para eles, sim, abrangia todos os homens, e que não queriam ver questionado o privilégio que receberam apenas por serem homens.

Também nós, mulheres brancas, nem sempre nos abrimos ao questionamento do nosso privilégio, não denunciamos a branquitude nem a supremacia branca nas universidades, no currículo, no mundo do trabalho ou da política. Reconhecer o privilégio e agir denunciando e transformando não é apenas uma luta para fora, no espaço da política pública. Tal como a luta feminista, em que tivemos e temos de confrontar os privilégios masculinos construídos como ‘naturais’, temos também de desconstruir esta visão do mundo, esta construção do poder e do ser que advém da modernidade/colonialidade que ainda não ultrapassamos.

Herdámos uma modernidade (capitalista e patriarcal) que se constituiu com e através da colonialidade. Esta construção foi atravessada de dois processos associados que ainda hoje formam e enformam a nossa visão do mundo, por vezes, também na esquerda e nos feminismos: a codificação da hierarquização entre pessoas e o estabelecimento de um novo modelo de controle do trabalho e dos recursos (Quijano, 2000)*.

De um lado, a codificação das diferenças entre conquistadores e conquistados/as através da ideia de “raça”, supostamente assente nas estrutura biológica — exatamente como também se fez para a de/marcação entre feminino e masculino — estabeleceu os fundamentos de uma ideologia dominante racista, naturalizada, tanto através de processos de dominação, exercício do poder e de exploração, como através das “evidências científicas” que se iam produzindo nas instituições do Ocidente. Novas categorias identitárias foram criadas: povos civilizados versus incivilizados (ou os eufemimismos do “progresso”: desenvolvidos, subdesenvolvidos, em desenvolvimento…). Esta construção continua presente entre nós, mais ou menos (in)conscientemente, produzindo lentes de leitura da realidade e cosmovisões silenciadoras de outras vozes, de outras comovisões, de pensamentos outros. Este longo processo estabeleceu, também, o que Maria Lugones (2014)** chama de “sistema moderno colonial de género”.

De outro, a estruturação do novo modelo de controlo do mercado de trabalho ía, como ainda vai, para além do território nacional, ao estabelecer através do imperialismo colonial uma intrincada trama de reorganização de velhas estruturas do controle do trabalho, a escravatura e a servidão, agora complementadas com a proletarização, com investidas imperialistas coloniais noutros territórios.

Este eixo de reflexão tem trazido novas lentes que nos permitem olhar a complexidade das opressões e discriminações, que algumas/ns autores/as designam de interseccionalidade.

O feminismo, hoje, se pretender ser um guia para lutas emancipatórias tem de olhar com objetividade, para fora e para dentro, para a materialidade das relações sociais em que nós, mulheres, estamos situadas, e denunciar o patriarcado capitalista e colonial.

* Maria José Magalhães

Maria José Magalhães: “Sinto que há uma nova geração a brilhar, a  organizar-se e a mobilizar-se…” – 40 anos, 40 mulheres

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*Quijano, Anibal (2000) “Coloniality of Power, Eurocentrism and Latin America”, Nepantla: Views from South, 2000, Vol. 1 Issue 3, p533-582.

**Lugones, Maria (2014) Rumo a um feminismo decolonial, Revista de Estudos Feministas, 22(3): 935-952.

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