Se queres a paz não prepares a guerra *

(a indústria do armamento diz o contrário, claro!)

A Comissão Política do Bloco de Esquerda, num comunicado público, analisa as conclusões da recente cimeira da NATO em que, muito justamente, critica a inflexão estratégica imposta por Biden que coloca a China no ponto de mira de todas as armas desde o canivete suíço – a Suíça não integra a NATO, e não sabemos como consegue sobreviver, mas os canivetes podem adquirir-se por aí – passando pela espingarda de assalto até aos misseis balísticos nucleares; sem esquecer o domínio operacional do espaço que desde 2019 passou a integrar a “narrativa” de dissuasão da NATO para, naturalmente, dar suporte à Força Espacial dos EUA anunciada dias depois da decisão.

A NATO, em boa verdade, é o instrumento decisivo de garantia da unidade dos Estados europeus, mais do que os próprios interesses económicos e orientações políticas, e foi a manus militari, associada ao Plano Marshall, que assegurou o domínio absoluto dos Estados Unidos sobre a Europa.

Da defesa comum no Atlântico Norte ao espaço sideral foi um salto por entre desastres sucessivos desde o Afeganistão ao Iraque, aos Balcãs, à Líbia, à Síria, em que o factor preponderante na definição das estratégias foi, e cada vez é mais, os negócios do Complexo Industrial Militar e de uma “grande rede” industrial a que o Innovation Hub do Comando Aliado para a Transformação (ACT) “alavanca o poder intelectual”.

Os negócios continuam portanto no epicentro das razões para uma boa guerra que, no caso da NATO, passa sempre por uma esclarecida intencionalidade de dissuasão.

O desenvolvimento capitalista integra a destruição para a reconstrução – o negócio em última instância – e a Doutrina do Choque, esta mais estritamente económica e alicerçada em repressão brutal, como base fundamental do progresso, sendo a própria estrutura da sociedade capitalista plasmada da organização militar ( o nosso Vice-Almirante das Vacinas anda fardado como se estivesse em combate, diz orgulhosamente que sim e o pessoal alinha bovinamente na representação simbólica das Forças Armadas como espinha dorsal e salvação da pátria)

Toda a estratégia saída da cimeira Biden, e tão bem caracterizada no comunicado do Bloco de Esquerda, é afinal uma questão de negócio dos EUA em confronto com a China.

A Doutrina Monroe aplicada aos tempos modernos alargou o quintal dos EUA da América Latina à Europa depois da II Guerra Mundial e agora à África, onde em articulação com o neo-colonialismo francês está a promover um novo Afeganistão no Sahel donde, depois de muitos mortos e refugiados, vítimas do terrorismo jihadista e do terrorismo natista, que a fortaleza europeia despreza miseravelmente, sairão uma vez mais derrotados proclamando o papel da NATO na garantia da paz mundial.

Mas que interessa isso se os negócios prosperaram?

A China, que tem vindo a instalar-se paulatinamente nas economias africana como, aliás, nas ocidentais em geral, prosseguirá o incremento da sua influência africana.

Da boa análise da cimeira Biden está, no entanto, ausente um factor determinante embora menos ostensivo e frequentemente tido como anódino em tão cósmica e complexa estratégia belicista: o papel da luta dos povos que venceu no Vietnam, no Afeganistão, em Cuba, e nas guerras de libertação nacional, nomeadamente na Guerra Colonial que o fascismo português moveu contra os movimentos de libertação. E que na América Latina com altos e baixos está em permanente ebulição.

Qual é então a posição do Bloco perante uma situação que o comunicado da Comissão Política sumariamente tão bem analisa? Que consequências retira para apresentar à cidadania, que propostas concretas devem ser apresentadas ao movimento social, à sociedade em geral, aos trabalhadores que continuarão nestas andanças a ser carne para canhão?

Não basta concluir em tom de homilia papal que “A opinião pública internacional tem de continuar a mobilizar-se pelo desarmamento, pela desmilitarização e pelo fim dos blocos político-militares. Essa é a via da paz contra as guerras infinitas.”

Não basta encostar-se a proclamações gerais e sucessivas que o Bloco tem feito ao longo da sua existência, por mais justas que sejam, mas que esbarram na inoperância oportunista.

Como pode Portugal abdicar da sua soberania e do respeito pela sua Constituição e continuar a pertencer a uma organização de crime global contra os povos, instrumento de agressão e guerra ao serviço do negócio mais odioso, depois do negócio do tráfico de seres humanos e da escravatura moderna, que é o negócio das armas?

O Bloco de Esquerda perante a sua justa análise fica obrigado a tirar conclusões práticas para a acção e não se remeter ao papel de analista inconsequente. O Bloco não é um grupo de académicos, o Bloco é um partido comprometido com o esclarecimento, com o apelo à luta e com a acção.

A retirada das tropas portuguesas em missões internacionais chamadas de paz, mas que são a concretização do belicismo, do militarismo, do armamentismo, instrumentos da estratégia belicista dos EUA através da NATO, que a Comissão Política do Bloco tão bem critica, é uma exigência sem a qual não passaremos da conversa inconsequente.

Neste âmbito geral há também que abordar, sem reticências, a reforma das Forças Armadas integrada num contexto de saída da NATO e de organização da Defesa Nacional alicerçada fundamentalmente nos interesses do povo português, ou seja na defesa em permanência das pessoas e bens, materiais e imateriais, que são a essência e base da nossa soberania que se encontra hipotecada aos EUA através da NATO.

Como muito bem diz o título desta nota (passe o auto-elogio) se queres a paz, não prepares a guerra.

* Mário Tomé

Visão | Major Mário Tomé desabafa sobre o 25 de novembro

3 pensamentos sobre “Se queres a paz não prepares a guerra *

  1. As exigências de M. Tomé são o mais oportunas possível e surgem num contexto particularmente grave, não só pelo ficou dito (e bem), mas tb e sobretudo porque a escalada belicista da aliança mais agressiva do mundo acaba de atingir novos patamares altamente procupantes. Há poucos dias, uma fragata inglesa entrou deliberadamente em águas territoriais russas, no Mar Negro, obrigando os navios russo a abrir fogo real para dissuadir o intruso britânico que logo se esgueirou para a segurança das águas internacionais. À laia de desculpa esfarrapada, o min. inglês da defesa alegou que o navio seguia “um rumo inocente”.
    Provocações deste calibre são exactamente aquilo que pode desencadear um grave conflito, no qual nem o Reino Unido nem Portugal têm nada a ganhar e tudo a perder. Mais uma razão para exigirmos a saída da NATO, sem mais delongas.

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