A transformação da cidade não é impossível *

“Você quando está trabalhando numa cidade, tem de aprender a enxergar a cidade através dos olhos das pessoas. Se você não entender o olhar das pessoas, você não entende a cidade, porque as pessoas é que te contam a cidade”. Não estamos perante a reflexão de um repórter. Quem tal declarou foi Jaime Lerner, arquiteto e urbanista que ocupou por três mandatos o cargo de Prefeito de Curitiba, no Paraná, Estado do sul do Brasil.

Jaime Lerner faleceu aos 83 anos, no final do passado mês de maio. As profundas transformações que Lerner e as suas equipas operaram em Curitiba desde o seu primeiro mandato iniciado em 1971, almejando um urbanismo humanizado e com inevitáveis cuidados ambientais, transformaram aquela cidade num exemplo da possibilidade de romper com distopias. Curitiba diminuiu e racionalizou a circulação de automóveis, plantou árvores abundantemente e foi pioneira na reciclagem de lixos. Reciclagem de lixos que se inseriu através da campanha “lixo que não é lixo – lixo que é riqueza” em programas de ação social, com resíduos a serem trocados por alimentos, livros e diversas formas de acesso à cultura. Criaram-se na cidade saneamentos, limparam-se córregos, ergueram-se casas sociais com princípios ecológicos. Nas administrações do prefeito Lerner, tiraram-se crianças das ruas.

A transformação numa cidade, ela não é impossível”. Assim alentado, Lerner deixou de lado as grandes obras viárias que muitos autarcas e urbanistas implantam, para antes se focar num desenvolvimento do transporte coletivo. Evitou-se então uma das principais causas de poluição numa cidade com dimensões próximas das de Lisboa e promoveu-se, a um mesmo tempo, uma qualitativa convivência das pessoas. Para alcançar maior conforto do uso dos transportes, Curitiba criou paragens-abrigo tubulares. Vias pedonais, parques e áreas verdes permitiram uma elevada fruição da cidade. Jaime Lerner entendia a cidade “como local de encontro das pessoas” e como “último refúgio da solidariedade”.

“As pessoas às vezes não se dão conta que elas podem fazer tudo, só que elas precisam saber o que fazer”. Com esta ponderação de Lerner, permita-se-nos passar para o Portugal de 2021.

Se alguém pode estar distraído da real situação social que se vive atualmente, uma notícia dos últimos dias faz acender, mais uma vez, luzes vermelhas de alerta:

“Em comparação com o cenário sem crise, 400 mil novos indivíduos caíram abaixo do limiar de pobreza, definido como 60% do rendimento mediano equivalente, aumentando a taxa de risco de pobreza em 25% como consequência da pandemia de covid-19”, concluiu o estudo do Observatório Social da Fundação “la Caixa”, da autoria do Center of Economics for Prosperity (PROSPER) da Universidade Católica de Lisboa”.

O estudo expõe mais:

“A pandemia, ainda em curso, e a crise económica resultante, trazem consigo desafios orçamentais substanciais, uma vez que esforços governamentais de grande magnitude podem ser difíceis de sustentar por um período prolongado”, alerta o PROSPER, para quem é “evidente que, sem uma forte recuperação, uma redução das políticas de proteção pode causar um impacto negativo substancial na pobreza e na desigualdade”.[i]

A todos os problemas ambientais, à injusta clivagem entre o litoral e o interior, juntam-se agora novos e cada vez mais graves questões sociais que é preciso resolver. Não se pode ficar atónito entre o tanto a fazer, é preciso fazer. Perder a oportunidade que as eleições autárquicas deste ano permitem de fazer chegar ao poder local quem, devidamente preparado, esteja determinado a enfrentar os problemas num esforço solidário, participativo e integrado com a vida das pessoas, com os movimentos sociais e os sindicatos, seria um revés. É preciso levar ao poder local novas vontades.

* Alberto Guimarães


[i] https://sicnoticias.pt/especiais/coronavirus/2021-06-22-Crise-causada-pela-pandemia-atirou-400-mil-pessoas-para-a-pobreza-em-Portugal-281ff0e5

As citações de Jaime Lerner foram retiradas da entrevista a Ana Sousa Dias, no programa ‘Por Outro Lado’, RTP, 08/03/2003. Disponível em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jaime-lerner/

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