No pátio dois miúdos ouvem música.

Numa escola básica, a meio da manhã, no pátio dois miúdos ouvem música no telemóvel. Estão sozinhos, pontuam o espaço vazio.

São alunos do 3º ciclo, a idade e as retenções repetidas conduziram-nos para um percurso educativo diferenciado. Assistem a parte das disciplinas do seu nível de escolaridade com a turma, noutras desenvolvem trabalhos específicos acompanhados por um professor.

Naquela manhã estavam numa dessas aulas, deveriam estar os dois a trabalhar com um professor. Por isso, a sua presença no pátio chamou a atenção do director de turma, vai daí pergunta-lhes: “não estão em aula?” De pronto, um deles responde: “estamos, a professora foi tomar café com a directora!” Sem comentários, o homem seguiu o seu caminho. Estava esclarecido. De facto, tempos depois, como quem vem da portaria, a professora e a senhora directora passaram junto deles. Nada houve que dizer. Elas continuaram adiante. Eles continuaram a ouvir música. Com normalidade.

A perplexidade terá sido apenas de quem assistiu. Terá ouvido bem o diálogo? Terá visto bem a cena? Terá o ângulo sido o apropriado? Qual a sequência dos movimentos? Haverá um guião implícito por conhecer? Sim. Por certo, alguma informação está em falta. No limite, um enorme mal-entendido. Fosse um dia de sol e seria alucinação. Obviamente. Caso contrário, estaríamos perante dois alunos negligenciados por uma professora que se ausentou para tomar café com a Directora. Grosso modo, um comportamento negligente certificado pela competente superior hierárquica! Deixando de lado as implicações laborais, apetece fazer perguntas, sem esperar respostas. Para não calar.

Os dois alunos em questão têm merecido por parte da escola uma atenção singular. Para além de um currículo particular com actividades e professores específicos, contam com o acompanhamento de um tutor e de um assistente social. E mais recursos a escola tivesse. No final do ano já serão capazes de ler sem soletrar. Nenhum aluno pode ficar para trás. E todavia, aparentemente, parece ser aceitável que não tenham uma das aulas… simplesmente porque a professora foi tomar café com a senhora directora. No mínimo, causa perplexidade.

Ou nem tanto. Tenhamos nós coragem de ver, de confrontar as práticas. Sem procurar refúgio nos discursos. Havendo essa coragem, a perplexidade tende a desvanecer-se. Quantas vezes a profusão de normas e papéis não é a forma mais eficiente de escamotear o incumprimento, até a falta de vontade. Será esse o caso? Em boa verdade, não sabemos. Melhor será não o acreditar.

Imagino que este episódio possa suscitar o incómodo de alguns. Haverá quem pergunte como é possível? Alguém mais destemperado diria, se fosse com um filho meu… Temo que, infelizmente, o incomodo se aquiete com a introdução de um pequeno acrescento na narrativa. No pátio dois miúdos ciganos ouvem música no telemóvel.

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