A XII Convenção Nacional do BE e o seu imediato pós: testemunho e análise *

Fui eleito delegado ao conclave do partido pela Plataforma 3R, que apresentei no distrito de Coimbra e da qual fui o único candidato, apoiado por camaradas da lista alternativa, que, no início de 2020, se apresentou às eleições para a Concelhia local.

Apesar de a lista da moção A, oficialista, ser aí encabeçada por dois “pesos-pesados” do partido e ter, no seu seio, todo o aparelho local, obtive 1/3 dos votos válidos, contra 2/3 da lista opositora. Se tivesse mais candidatos/as, teria eleito 4 delegados/as, contra 8 da moção A.

Na Convenção, fui convidado pela moção E para integrar a respetiva lista à Mesa Nacional, em lugar não elegível, embora num esquema de rotatividade que me permite participar em várias reuniões daquele órgão. Aceitei o convite, em troca da subscrição, por parte de camaradas dela integrante, de algumas das minhas propostas de alteração aos Estatutos, fornecendo as assinaturas necessárias para que estas pudessem ser discutidas.

Do que se passou na Convenção, retiro o seguinte:

  1. O “bloco central” entre as duas principais tendências, a RAC (ex-PSR) e a TEA (ex-UDP), continua vivo na partilha do poder e na manutenção do “status quo”, embora, como sucede neste tipo de grandes coligações, os dois parceiros se vão marcando um ao outro. A TEA tem uma forte cultura aparelhista, é um grupo mais coeso e está mais organizada no interior do partido. Porém, a RAC tem os melhores quadros, maior capacidade de agregar gente de fora da tendência e mais fácil acesso ao espaço mediático;
  2. A forma como foram votadas as propostas de alteração aos estatutos foi vergonhosa. Depois de serem apresentadas, veio algum pessoal da TEA criticá-las à base de retórica por vezes truculenta e demagógica. No fim, a votação das propostas de alteração, feita “a mata cavalos”, foi puramente mecânica: para os/as apoiantes do poder, propostas apresentadas pela minha pessoa ou pelas moções alternativas eram automaticamente “chumbadas”, apenas sendo aprovadas as poucas da Mesa Nacional, onde a direção dispunha de ampla maioria. Dada a rapidez do processo, muita gente nem sequer soube o que estava a votar;
  3. O poder fugiu ao debate das questões internas, mostrando uma arrogância e um desprezo inusitados pelos/as camaradas que apresentaram as moções e plataformas críticas. Quando subiam à tribuna, os apoiantes da moção A falavam de tudo e mais alguma coisa, menos das moções em discussão, esvaziando, dessa forma, o debate. Como referi na minha intervenção sobre este ponto, “uma Convenção não é um comício e, se não é nela que se discutem os problemas internos, quando e onde é que eles se discutem?”. Se querem falar para o exterior, incluam um ponto na ordem de trabalhos da Convenção, mas deixem espaço para discutir as moções;
  4. A intervenção do Francisco Louçã, afirmando que a Mariana Mortágua será ministra das Finanças, foi, não apenas um “sound-bite” estudado, mas também um indício de que começa a estar em andamento a futura sucessão da Catarina Martins e que a RAC se posiciona com a deputada para sua sucessora;
  5. A intervenção da maioria dos elementos afetos à direção, apesar de pontuada por fortes críticas ao PS, não fechou a porta a uma futura negociação e entendimento. No fundo, é notória a dificuldade do BE em lidar com um quadro político cada vez mais complexo, onde se arrisca a ficar “preso por ter cão e preso por não ter”;
  6. A intervenção final da Catarina Martins teve um ponto infeliz, ao nível comunicacional, ao dar a presença do BE na vereação da CM de Lisboa como exemplo da importância da presença do partido nas autarquias locais. Percebo a substância (o papel do Bloco nas políticas sociais do município), mas a verdade é que aquela ficou indelevelmente marcada pelo “caso Robles” e é nisso que a maioria da opinião pública pensa;
  7. O envelhecimento do partido é notório, como se viu nesta Convenção, em que a maioria dos/as delegados/as tinha mais de 50 anos. É triste ver aquele que, quando nasceu, era o partido que mais simpatia despertava na juventude, não ser capaz de atrair os/as mais jovens. E, sem estes, não há futuro, pois nós não duramos sempre. O problema é que ninguém se interroga sobre o porquê desta realidade e, menos ainda, apresenta soluções para lhe fazer face;
  8. A própria direção reconheceu, em declarações à comunicação social, que o BE tem fraca implantação autárquica, mas não reflete sobre o porquê, nem sobre o que fazer para alterar essa realidade. Apresentei esse problema na minha intervenção, afirmando que tal “não é um karma, mas, antes, o fruto da debilidade das estruturas locais, agravadas pela crescente centralização e burocratização do partido, que leva à falta de implantação no terreno e à ausência de trabalho político”. Daí ter considerado essencial dar mais poder às bases e limitar os mandatos nos órgãos do partido para evitar a crescente desmoralização e desmobilização dos/as aderentes, para o que apresentei várias propostas de alteração dos estatutos. Debalde;
  9. A votação das moções e as eleições para a Mesa Nacional e para a Comissão dos Direitos mostraram um reforço do peso das moções críticas, que já se observara na eleição dos delegados. Aquelas passaram a somar 32,5% dos membros do primeiro daqueles órgãos (21,2% para a moção E), mostrando que nem todo o partido está adormecido e há quem não se conforme com a evolução que este vem experimentando nos últimos tempos;
  10.  A primeira reunião da Mesa Nacional mostrou que a reação da maioria à maior pluralidade do Bloco foi um preocupante fechamento, traduzido na apresentação e aprovação de uma série de propostas que reduzem a democracia interna. Ao mesmo tempo, aquela recusou, de forma mecânica, todas as que foram apresentadas pelas moções críticas. A posterior redução da periodicidade das reuniões da Comissão Política e a composição do Secretariado apenas com gente da moção A são disso sintoma.                                                                                                     

* Jorge Martins

2 pensamentos sobre “A XII Convenção Nacional do BE e o seu imediato pós: testemunho e análise *

  1. Concordo com o relato efetuado.
    De facto aonde iremos parar?!
    O destino talvez não seja uma incógnita, muito menos uma probabilidade…

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  2. O texto do Jorge foca com exactidão uma realidade já conhecida. O que lamento é que, sendo tudo isso sabido e expectável, muito pouco tenha sido feito para dar a volta necessária, bem como não se preveja nenhuma estratégia a sério para ir além deste muto de lamentações.

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