Europa não, Portugal nunca. Viegas sempre! *

Mário Viegas não morreu nem morrerá nunca. Esta a conclusão mais apropriada para a notícia da morte do Mário em 1 de abril de 1996, dia das mentiras.

Transcrevo o artigo que escrevi para o álbum «Um rapaz chamado Mário» editado pelo Museu do Teatro

Quando o Mário Viegas aceitou ser candidato pela UDP na lista de Lisboa para as legislativas de 1995 ele deu um passo arriscado: tendo participado em tempos de antena desde o PCP ao PSR e UDP, nunca o seu compromisso “partidário” tinha ido tão longe.

Sinto que ele o fez porque também sabia que “não basta mudar as moscas” – a palavra de ordem central da nossa campanha. Mas, principalmente, porque percebeu  estar a chegar o momento em que era necessário romper caminho para um projecto amplo, plural e radical de enfrentamento e de combate ao neoliberalismo, ao pensamento único, à dissolução da veemência e da radicalidade na cultura e na política.

Mário Viegas era um finíssimo político no sentido mais nobre do termo e por isso era um agitador sem igual, capaz das maiores audácias, de se instalar no fio da navalha e de percorrê-lo com total segurança. Com a sua entrada na lista da UDP o seu génio criador, a sua capacidade de iniciativa, a sua irreverência avassaladora, a subtileza que fazia da mais violenta provocação um momento de superior sensibilidade, foram uma forte marca na campanha. Apesar da contenção imposta pela comunicação social, reprodutora empenhada do stablishment,  na cultura e na política: o que é deve continuar a ser!

Mas o Mário Viegas deu-nos uma  grande ajuda numa fase importante da nossa transformação, acreditou em nós, “UDP – União de Poetas da ‘Esquerda a valer’, Humoristas, Futuristas, Revolucionários e Boa Gente e Tudo”, como ele pôs na capa do Manifesto Anti-Cavaco (Porra pró Cavaco, porra, PIM)

 “Europa Não, Portugal Nunca” marcou de forma única a cena cultural e política portuguesa nos últimos estertores do cavaquismo mas em plena estruturação do Bloco Central neoliberal com a continuidade guterrista. “Nesta companhia ninguém assinou para esse senhor que diz ser secretário de Estado da Cultura” rezava o cartaz à boca da cena, zurzindo a um tempo  Santana Lopes e os seus engraxadores teatrais.

Como ninguém, soube fazer a crítica do decadentismo do sistema. Essa crítica é hoje o lugar da utopia. Em cada gesto, em cada cena, em cada verso recitado, ele não convocava a utopia como adereço mas punha-a como necessidade de concretização. Como Oscar Wilde ele sabia que o progresso é a concretização das utopias, tendo o entendimento da tradição como suporte histórico e cultural para a transformação  do mundo.

Mário Viegas – a RTP que concluiu não ter envergadura para continuar a albergar tamanho talento, faz agora imensa publicidade do Vídeo “Palavras ditas” – foi o maior declamador de sempre e ainda o mais empenhado divulgador dos nossos maiores poetas. Só ele seria capaz de arrastar multidões com os “Poemas do Gin Tónico” de Mário Henrique Leiria.

Mário Viegas transgressor, iconoclasta, provocador, sublime, genial, actor inultrapassável, homem inteiro, representou sempre aquilo que o teatro tem de mais elevado e de mais nobre: a sua relação profunda com a vida, o seu compromisso radical com a liberdade, o seu antagonismo irredutível com o poder.

* Mário Tomé

Visão | Major Mário Tomé desabafa sobre o 25 de novembro

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