O polo de esquerda *

As novas praças públicas de discussão tornaram-se quase intransitáveis de tanta extremização e confronto. Tudo se discute, sempre com a certeza toda, e em duas trocas de comentários passa-se de um cumprimento a juras de morte. A polarização política acontece, puxada pela extrema direita e o seu discurso odioso.

O reaceonarismo e o ultraliberalismo avançam nas redes sociais e na vida, remetendo a política cada vez mais para a direita. Cabe uma resposta à esquerda.

A origem

De acordo com o relatório da Oxfam [1] de 21 de janeiro deste ano, as 26 pessoas mais ricas do mundo concentram tanta riqueza como as 3,8 biliões mais pobres. Tal relação é única na história humana e criou uma desigualdade intolerável, excluindo milhões de pessoas na sociedade.

As economias da Europa ocidental e da América do norte há décadas que se revelam incapazes de alcançar o pleno emprego, garantir a qualidade de vida dos povos ou os seus direitos mínimos constitucionais.

O neoliberalismo implantou-se e com ele o desemprego elevado tornou-se a forma de chantagear quem trabalha, colocando os salários médios reais estagnados por dezenas de anos. Tudo em nome de uma acumulação insana.

Os ataques sucessivos ao Estado Social contribuíram em muito para piorar as condições de vida das populações, colocando mais despesas em orçamentos familiares já muito esforçados pela desvalorização do trabalho.

Milhões de pessoas foram perdendo o seu lugar, o seu sentido de pertença na sociedade. É natural que se afastem do atual sistema político, questionando-o, desejando a sua superação. Ativa-se a participação política de largos setores da sociedade, agora acomodados eleitoralmente na abstenção.

É neste terreno de desilusão que a extrema direita coloca suas sementes de ódio, tornando-se latifundiária da desesperança social.

Redes do neofascismo ultraliberal

Com um quadro social favorável para o fortalecimento de discursos alter sistema (nem que só na aparência), faltava o meio em que essas ideias ganhassem engajamento. As redes sociais, e a lógica de conflito do algoritmo que as rege, seriam o parceiro perfeito para os partidos e movimentos neofascistas aumentarem a sua influência.

A estratégia foi criar uma máquina de comunicação de massas que através de perfis falsos, robots, envio em massa de fake news,… fosse capaz de vincular a narrativa reacionária. Destruindo reputações em minutos ou criando mitos. Sempre sem filtro ou contraditório.

A descredibilização dos média corporativos tradicionais (para a qual os próprios contribuem), leva à sua substituição pelas redes sociais e plataformas, que ficam como principal e única fonte informativa, criando assim um canal direto entre as lideranças neofascistas e as bases. Estes laços são cada vez mais estreitos, alimentando o seguidismo cego, fomentando o fanatismo político, reforçando as características de seita destes movimentos.

Em todos os palcos eleitorais em que estes instrumentos de comunicação digital foram deixados sem controlo, o resultado é invariavelmente a vitória da extrema direita. Tem-se revelado uma máquina invencível.

O conservadorismo encolhido encontra nas redes sociais e plataformas o meio onde as convicções racistas, misóginas, homofóbicas e ódio de classe em geral fazem eco sem condenação social.

Enquanto os reacionários convictos encontram nestes movimentos/partidos seu lugar de fala, constituindo a sua base mais estrutural, muitos outros aderem por desespero, por não acreditarem mais ser possível viver neste sistema que não os enquadra, encantados por um discurso objetivo e agressivo.

O polo de esquerda

Esta desesperança tem de ser desafiada por um projeto político que ataque a desigualdade de frente. Uma sociedade que retome a racionalidade na economia, quer na divisão da riqueza, quer na relação predatória com o planeta, que já não nos aguenta mais.

A extrema direita polariza nos seu valores reacionários, mas também na sua visão ultraliberal da sociedade, em que os ataques ao Estado e valores públicos são o centro da sua doutrina, questionando a ciência como forma de ocultar a tragédia sanitária e ambiental que promovem. A discussão política é empurrada cada vez mais para a direita. No máximo a sociedade só  consegue defender as causas civilizacionais, deixando a economia ultraliberal correr solta.

Só a esquerda tem condições de apresentar alternativa a este sistema económico desigual e disputar a base insatisfeita do sistema, reforçando a sua presença nas lutas laborais, civilizacionais e ambientais. Ao contrário da extrema direita que propõe o aprofundamento da economia liberal já existente, aumentando a acumulação de riqueza de alguns e provocando o empobrecimento generalizado de todos os outros; a esquerda pode e deve apresentar propostas de combate à desigualdade.

Taxação de dividendos bolsistas, de grandes fortunas, de heranças e veículos de luxo; eliminação de offshores, reestatização de setores estratégicos e o reforço do estado social tem de reentrar no argumentário político da esquerda. Com a crise do covid-19 torna-se evidente as limitações do mercado, assim como as áreas públicas que precisam de investimento. Saúde, educação e habitação tornaram-se problemas expostos durante esta pandemia, que só um compromisso coletivo assumido através do Estado pode resolver.

Também a transição energética deve ser usada como motor de uma nova economia, com emprego qualificado. Os investimentos nesta área serão os maiores do século até então, mas só a participação das populações na discussão e decisão destes projetos pode evitar que fiquem reféns dos interesses das corporações, aumentando a desigualdade e injustiça energética. O acesso à energia deve ser um direito básico reenvidicado pela esquerda. A democracia energética é uma exigência social do século XXI.

A crise ambiental não se compatibiliza com grandes unidades industriais e agrícolas e longos circuitos de distribuição. O conceito descentralizado de produção (de energia e de tudo o resto) é nuclear para garantir mais democracia energética, mas também para atenuar a contradição ambiental, apresentando caminho para a regionalização e o pleno emprego. O apoio a projetos locais e descentralizados deve contrapor os projetos faraónicos que só compreendem as grandes corporações. A luta pela descentralização e localização da economia é uma luta pela justiça social e pela harmonização ambiental.

O compromisso com as novas gerações tem de ser estabelecido através da visão de um planeta habitável, com condições de vida melhores que as atuais.

É preciso recuperar a esperança das pessoas com uma referência política que retome a discussão à esquerda. Um projeto de sociedade ecossocialista pelo qual valha a pena lutar.


[1] Oxfam – Com origem em 1995, em Inglaterra, hoje é um conjunto de 19 organizações não governamentais que atua em 90 países. Tem nos seus princípios combater a pobreza e a injustiça.

* Rui Abreu

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