A aliança do mercado *

Trump perdeu as eleições, não se reelegendo para a presidência dos E.U.A.. Mas a sua influência permanece interna e externamente, assim como as consequências políticas de um projeto neofascista ter passado pela Casa Branca. A ascensão de Trump e sua agenda deu alento e referência a partidos e movimentos neofascistas pelo mundo inteiro, deslocando a política mundial para a direita. A agenda conservadora avança com mais ou menos celeridade de acordo com as realidades nacionais, mas o ultraliberalismo consolida-se de forma rápida, global, uniforme e inquestionável.

Os exemplos de subducção do Estado aos interesses do mercado sucedem-se, da saúde pública à energia, da diplomacia à liberdade de expressão. Seria apenas mais um passo do desenvolvimento capitalista não fosse o quadro pandémico. Neste cenário a gestão feita pelo mercado é sinónimo de milhões de mortes.

Surgiu há dias a notícia que já se aguardava: o Knightsbridge Club,  um clube de elite de Londres em que a quota anual ronda a quantia de 25 mil libras (cerca de 28 mil euros), promove viagens de férias para os Emirados Árabes Unidos para vacinação dos seus membros. O turismo de vacinação tinha nascido. O tema rendeu as maiores críticas a nível mundial e 2 mil novos membros ao clube londrino em 24 horas.

Além da excentricidade desumana que a matéria aborda, a evidência é que o mercado decide cada vez mais na sociedade. Até em matérias de vida e morte aparece como o único dirigente e, também, beneficiário.

De forma generalizada, governos e organismos supranacionais deixam as corporações ditar as regras da sua participação no combate ao covid-19, da produção e distribuição das vacinas, submetendo as políticas de saúde pública aos interesses lucrativos dessas organizações.

As medidas de exceção são adotadas para toda a população, criando fortes constrangimentos nas liberdades individuais e coletivas. Toda a economia e sociedade sofre forte contração com a pandemia menos as corporações, que apenas aumentam a sua riqueza. Em vez de requisições de hospitais privados para internamento e tratamento de doentes, são firmados negócios bilionários. Obrigando a economia dos estados a um esforço que vai faltando para apoiar famílias e pequenos negócios no cumprimento de quarentenas sérias que contenham a pandemia. Em vez dos estados apoiarem a quebra de patentes, facilitando a produção genérica da vacina (o que aumentaria o número de vacinas disponíveis e baixaria os preços), os países das potências famacêuticas e seus estados lacaios defendem a permanência das patentes na O.M.S.. 

Os Estados tornaram-se reféns dos planos comerciais dos laboratórios. Os planos de vacinação apresentados pelos governos são propositadamente descomprometidos com os números de vacinados, não permitindo a população divisar e monitorar metas claras na vacinação. No caso português, sem que o plano de vacinação assuma quaisquer datas quanto à vacinação concreta da população, António Costa projeta publicamente as metas da U.E., cerca de 70% da população vacinada até ao verão. Com os interesses dos laboratórios a sobreporem-se a tudo e todos, cá estaremos para cobrar do 1º ministro português o cumprimento dessa meta.

As corporações decidem quanto vender e a quem vender primeiro, sempre orientadas pelo lucro; esta gestão está a criar um quadro de vacinação a várias velocidades, entre países ricos e pobres, entre populações ricas e pobres.

Toda a desarticulação existente, devida aos diversos interesses de lucro em jogo, só atrasa o processo de vacinação e condena à morte milhões de pessoas. O atraso pode ser tanto que quando a grande maioria das populações tiverem acesso à vacina, novas variantes do vírus devem já ter aparecido e podem até já ser resistentes às vacinas existentes. Para os laboratórios é ótimo negócio, novas vacinas váo ser produzidas e comercializadas.

Temos o sinal de como o mundo se rendeu ao neoliberalismo, deixando nas mãos dos bancos decisões já desafiantes se tomadas por estados nesta crise sanitária. O mercado não está equipado para lidar com estas questões. Se conseguir controlar o covid-19 será com um custo de milhões de vidas a mais do que se fossem os estados a organizar economica e sanitariamente a sociedade.

Imaginemos como será o mercado a gerir a crise ambiental, o maior e mais determinante problema a resolver, com o risco da extinção de quase toda a vida no planeta.

É óbvio que o negacionismo institucional de alguns governos, como o de Bolsonaro no Brasil, tem influência direta na morte de pessoas, mas é a gestão feita pelo mercado global o fator determinante na quantidade astronómica de vítimas da pandemia. A falta de investimento nos serviços nacionais de saúde pública por parte dos estados e o processo de produção e distribuição da vacina refém dos grandes laboratórios privados vai deixando um rasto mórbido, de uma epidemia que poderia ter sido enfrentada de forma a preservar a vida humana.  Só assim se explica que o número de mortos por milhão de habitantes no Brasil já é inferior que em Portugal* e outros países europeus.

A existência da extrema direita vai permitindo a política se encostar a agendas conservadoras, tornando o ultraliberalismo reinante, constituindo uma aliança de mercado. A esquerda não tem mostrado capacidade de apresentar uma proposta económica alternativa que mobilize a população em busca de justiça ecosocial. Só um confronto direto com a economia ultraliberal pode disputar maiorias sociais que questionem este modelo desigual, indo também à base da extrema direita, que floresce no descontentamento dos excluídos da economia.

Bolsonaro é considerado genocida por grande parte da população no Brasil. E nos outros países não é genocídio?

* Rui Abreu

* Número de óbitos por 1mi/hab Portugal – 1446 (em 11.02.2021)

* Número de óbitos por 1mi/hab Brasil – 1101 (em 11.02.2021)

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