Para não deixar ninguém para trás, para não ficar para trás *

Quando após as recentes eleições presidenciais, aquele que foi candidato da extrema-direita fez o seu pronunciamento, no qual afirmou que a partir de então o seu partido teria de passar a fazer parte de qualquer solução governativa de direita, o que pretendia asseverar era sublinhado com uma música triunfal. Tal como Hitler fazia ouvir um rufar de tambores ao subir as escadas da tribuna do Congresso de Nuremberga. E o até aqui comentador desportivo, aludiu ainda a uma pretensa missão de encomenda divina que o motiva. Nisso traça também uma paralela com a aura de mito reivindicada por Hitler. Para o aqui e agora português trouxe-se um agudo sentido da importância política da ênfase e da encenação. E recorreu-se a mentiras e argumentações torcidas. Para mais a terra era fértil se a removendo para usar o que resta das sementes do salazarismo.

O conhecimento escorreito, designadamente, da história e da sociologia poderiam ter dado atempadamente o alerta para um perigoso arrivismo. Mas não deu. Da mesma forma que os neofascismos de Trump, Bolsonaro ou até os já instalados na Europa, bem como toda a teorização do estrategista da nova versão da extrema-direita, Steve Bannon, faziam supor que não embeberiam ou embebedariam Portugal. Ledo engano que faz lembrar a Carolina de Chico Buarque: o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

O exclusivismo deliberativo da direção do Bloco de Esquerda, prescindiu de um amplo debate que incluísse as bases da organização e lançou a candidatura de Marisa Matias, que pesem as qualidades e o grande empenho da candidata, obteve um resultado muito inferior ao das eleições de cinco anos atrás e aos votos confiados nas últimas eleições legislativas ao Bloco de Esquerda. Obviamente que têm de ser encontradas e ponderadas as razões para o mau resultado. Não estará o Bloco de Esquerda, demasiadamente centrado no Parlamento e algo afastado das movimentações sociais sem que o perceba? Quando o Bloco de Esquerda acompanha e apoia incansavelmente os trabalhadores das pedreiras, vai Marisa Matias obter a mais satisfatória percentagem de 6,73% em Perozelo, Penafiel, onde se concentram grande número desses profissionais.

O Bloco de Esquerda, para não deixar ninguém para trás e para não ficar para trás, tem de marcar presença na vida autárquica. A diminuta participação nas autarquias por parte de militantes do Bloco de Esquerda, não pode ser justificada com a conjetura de ser o Bloco um partido recente, pois este soma já na sua história quase metade do tempo da democracia. O resultado das eleições presidenciais pode ser um transtorno mas não será incontornável, em havendo vontade e escolhendo-se candidatos providos da firme vontade de serem eleitos e darem o seu melhor nas autarquias que, hoje, com uma crise social instalada, mais que nunca, carecem da presença forte da esquerda.

Próximo das pessoas e com elas, nas autarquias, acompanhando os movimentos sociais, com uma fluida dinâmica participativa das suas bases, o Bloco de Esquerda, assim, pode contribuir para neutralizar a extrema-direita e contrariar com efeito o capitalismo.

* Alberto Guimarães

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