Riccardo Marchi e o Chega: um partido ‘anti-sistema’ ou um instrumento legitimador da extrema-direita? *

Tendo subscrito um manifesto no PÚBLICO sobre o livro de Riccardo Marchi intitulado A nova direita anti-sistema. O caso do Chegamanifesto este que teria sido entendido por alguns como um ‘ato de censura!’ – reafirmo que o autor, em conformidade com a alegada encomenda da editora de recusar ora a apologia ora a diabolização do Chega, legitima este partido de extrema-direita como partido conservador, anti-sistema mas democrático. Marchi aponta três fontes para a sua tese: a imprensa portuguesa, os documentos elaborados pelo Chega e as entrevistas em profundidade realizadas com duas dezenas de fundadores do Chega.

O autor, desqualificando vozes externas críticas, reproduz de modo descritivo e acrítico a trajetória, as vicissitudes e narrativas dos protagonistas do Chega, ignora as discrepâncias entre a retórica e as práticas e objetivos do Chega e, mesmo quando discute as ideias do líder e demais fundadores, de modo algum problematiza, interpela ou sujeita à análise crítica os mais diversos e até contraditórios posicionamentos. Poder-se-ia conjeturar que Marchi professa um posicionamento positivista de neutralidade axiológica, mas convinha ter presente que os positivistas desde Comte aos mais recentes, apesar de se declararem rigorosos no método e pretenderem separar factos sociais e valores, injetam sob uma auréola cientificista os seus próprios valores e ideologias que servem outros objetivos. Basta ver a repercussão e aceitação que o livro teve entre arautos da extrema-direita e dalguma direita, como a de Luiz Cabral de Moncada, segundo o qual a tese de Marchi seria susceptível de desacreditar todos os partidos por igual, salvo o do Chega, avaliando todos os políticos e deputados como arrivistas, irresponsáveis e apontando a partidocracia como a raiz de todos os males da República mas sem pôr em causa os interesses do grande capital (inter)nacional.

Com efeito, este facto por si só seria suficiente para concluir que o Chega não é anti-sistema, mas defensor do vigente sistema económico (neo)liberal desregulado com a particularidade de pugnar por um modelo conservador de família e por um ‘Estado forte’ mas supletivo e minimalista em serviços e bens públicos (educação, saúde, segurança social), como o confirmam documentos do Chega e testemunhos do líder e seus ideólogos. Porém, Marchi, para além de, à boa maneira dos liberais, analisar a esfera política como um mundo do poder separado do económico (propriedade, capital, relações laborais), prescinde de operar uma análise comparativa com os demais partidos, o que, se o fizesse, concluiria que são justamente os partidos de esquerda BE e PCP/PEV – que não o PS, apesar de se designar socialista – os reais partidos anti-sistema pela simples razão de estes partidos, sendo respeitadores da Constituição e do próprio Estado de Direito, apontarem o socialismo como alternativa ao capitalismo.

Mais, Marchi preferiu fixar-se de modo subtilmente propagandístico no Chega, avaliando mesmo como positiva a função do Chega por aproximar e mobilizar setores sociais desinteressados ou desanimados da política, traduzir pulsões anti-sistema segundo as regras do jogo democrático e reduzir a margem de manobras dos extremismos. Se no Chega há militantes de diversas tendências (ultra)conservadoras, o autor ignorou traços racistas e xenófobos do Chega, não aferiu devidamente a presença e/ou infiltração de grupos ou figuras de orientação declaradamente fascista nem investigou sobre eventuais financiamentos semiocultos nomeadamente por parte de figuras políticas (inter)nacionais e/ou pastores reacionários de Igrejas Evangélicas originárias do Brasil.

Mais ainda, o autor nem sequer analisou criticamente os documentos e sobretudo posições e práticas políticas do Chega até ao presente, o que se manifesta em: (i) assumir sem filtragem crítica a tese de que o fascismo seria um sistema derivado do socialismo; (ii) considerar o poder da maioria (do ‘povo’ entre aspas) como abominável; (iii) pugnar por uma IV República ‘ideologicamente neutra’, assumindo esta III República nascida do 25 de Abril de 1974 e a Constituição de 1976 como geradoras de ‘corrupção’, com partidos ‘mafiosos’, clientelares e rotativos no poder; (iv) advogar por um Estado securitário e apresentar propostas como a castração química para violadores, a pena de prisão perpétua e o trabalho forçado para reclusos; (v) negar o esclavagismo e até elogiar a colonização portuguesa realizada e a que se pretenda fazer (“o orgulho de dar novos mundos ao mundo”); (vi) estimular o ‘ódio’ a migrantes irregulares e a ‘deportação’ de islâmicos, ciganos ou negros, incluindo legítimas deputadas eleitas na Assembleia da República como Joacine Moreira; (vii) a simpatia, adesão e/ou integração do Chega na família política da extrema-direita na Europa e no mundo (vg. Vox, Liga Italiana, partidos xenófobos de países de Visegrado, Trump e Bolsonaro); (viii) recusar o ‘marxismo cultural’ e a alegada ‘ideologia de género’ com grande dose de ignorância e mistificação, em claro alinhamento com os referidos partidos de extrema-direita; (ix) e, por fim, a hostilidade ao multiculturalismo, a assimilação forçada e propostas de confinamento e criminalização das comunidades ciganas classificadas como ‘ilegais’, ‘incumpridoras’ de deveres e ‘parasitárias’ do Estado, aliás colocados em registo similar a banqueiros fraudulentos ou políticos corruptos.

Perante propostas nem sequer subscritas por liberais e a crescente influência do Chega na sociedade portuguesa, o que fazer neste quadro? Ignorar o Chega para não lhe dar publicidade ou meter a cabeça na areia, negando que também entre as classes populares há preconceitos e representações xenófobas, por exemplo, face a islâmicos, negros e sobretudo ciganos?

Os dados apurados por cientistas europeus e portugueses como Jorge Vala, Alice Ramos e eu próprio apontam para uma taxa mais elevada de ‘’racismo biológico” e ‘racismo cultural’ em Portugal que a média europeia, ou seja, respetivamente 52,9% e 54% versus 29,2% e 44%, o que, para além do lastro de velhas narrativas do tempo colonial e salazarista sobre um Portugal multirracial e lusotropicalista, é potenciado por responsáveis no pós 25 de Abril, nomeadamente pelo atual Presidente da República com suas proclamações categóricas de Portugal como país universalista sem racismo institucional.  Ora é justamente neste campo que as esquerdas devem levar esta realidade em linha de conta, tornando-se imperativo não só esclarecer as populações menos informadas – que veem os imigrantes como concorrentes e ‘bodes expiatórios’ das suas situações precárias – como lutar em base unitária no terreno e a nível institucional para que o Estado proporcione segurança mínima e acuda a carências básicas que atingem não só as minorias étnicas como uma parte considerável de portugueses/as, desprovidos/as de recursos e abandonados/as nas periferias e subúrbios. Uns e outros/as são vítimas do sistema capitalista e cujos problemas os Venturas do Chega de modo algum estão interessados em resolver, mas em instrumentalizar demagogicamente no campo eleitoral para seus objetivos de poder musculado na mira de um Estado penal e punitivo contra os mais vulnerabilizados.

Concluindo, contrariamente à acusação de que os 67 subscritores críticos do manifesto sobre o livro de Marchi teriam cometido um ‘ato de censura’, tratou-se de expressão crítica sobre um livro que legitima um embuste ‘democrático’ chamado Chega.

* Manuel Carlos Silva

[Publicado na edição do Público de 11.02.2021]

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