Economia de Pandemia – Dúvidas e Paradoxos

1. Ainda ninguém se lembrou de perguntar ao Governo por que é que um país com a região mais afectada ao nível da península, a região Norte, é dos que menos vão gastar com a recuperação e ajudas para combater a pandemia? Alguém perguntou se há plano específico para esta região? é para continuar a montar tendas cá fora com hospitais privados ao lado?

2. Num estado de emergência, quando praticamente não há inflação, quando dispensam o seu próprio pessoal, quando cobram taxas e taxonas por tudo e por nada, quando se financiam abaixo de zero no BCE, ainda ninguém se lembrou de proibir à banca a cobrança de juros nos empréstimos que quase toda a gente tem (habitação, automóvel, consumo, p.ex.), e que representam uma das maiores perdas do rendimento das famílias e grandes fontes de lucro para banqueiros e accionistas?

3. Ainda ninguém se lembrou de proibir taxativamente os despedimentos, mesmo em empresas em que o salário dos trabalhadores foi ou está a ser pago por eles próprios, através da Segurança Social?

4. Ainda ninguém se lembrou de proibir nesta fase quaisquer alterações aos contratos de trabalho que impliquem a desvinculação do trabalhador, mesmo se a empresa, comprovadamente, e muito comprovadamente, não puder pagar, por agora, o seu salário? É para isso também que existe a ACT, o Fundo de Garantia Salarial e, no limite, a Segurança Social. O contrato pode ser suspenso, não pura e simplesmente terminado, e unilateralmente.

5. Depois de anos e anos de história contributiva e organização social e do trabalho, ainda há muito quem não saiba ou faz de conta não saber que:

a) O IVA é um imposto cego, é certo, pago pelo consumidor final, rico e pobre, não pelas empresas, não pelos patrões.

b) A TSU é salário dos trabalhadores, entregue em “consignação” ao Estado, não é pertença das empresas ou dinheiro dos patrões.

c) A concorrência desleal dos hipermercados e multinacionais de entregas de refeições – pela concentração de oferta, esmagamento de preços ao produtor, possibilidade de elisão fiscal, monopólio e cartelização, redução de força de trabalho/emprego e direitos laborais, lobismo sobre os Estados – é um facto, não um mito. Esse facto tem consequências em toda a economia, em todas as vidas. Estão à vista nesta pandemia.

6. Uma grande parte dos autarcas de partidos que durante anos e anos deram autorização e se congratularam efusivamente com a implantação maciça de hipermercados e centros comerciais monopolistas, por tudo quanto é lado, são agora os mesmos que se indignam com ameaças de aberturas às 6:30 da manhã e que fazem apelos preocupados às compras no comércio local.

7. Chefs-estrelas-de-TV que em Março diziam que o Governo não tinha “tomates” para fechar restaurantes são os mesmos que agora exigem a sua abertura quando os obrigam a fechar às tardes e noites dos fins de semana. Alguns também se queixavam há uns meses que isto era uma vergonha porque os professores não os deixavam obrigar os estagiários a trabalhar mais do que 8h/dia nos seus restaurantes, praticamente sem remuneração. Assim não há quem aguente…

8. Há empregados, trabalhadores e trabalhadoras de sol a sol nos cafés e restaurantes, que nunca na vida tiveram meios de produção mas que foram e estão convencidos que não são empregados. Milhares. O que é que a esquerda tem a dizer sobre isto?

Imagem de destaque – Polyangular Kaleidoscope de R.B. Bate (with adjustable reflector angles), as illustrated in Treatise on the Kaleidoscope (1819) David Brewster, Public domain, via Wikimedia Commons

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