Maria Velho da Costa (1938-2020) Há Mulheres que não morrem! – por Manuela Tavares

Acordei esta manhã com a triste notícia da morte de Maria Velho da Costa. Nome maior da literatura, soube chegar como ninguém ao mais profundo de cada um/a de nós.

Quantas vezes, li e reli “Mulheres e Revolução”!

Só uma mulher de enorme sensibilidade conseguia descrever os quotidianos das mulheres nos mais ínfimos pormenores.

Co-autora das “Novas Cartas Portuguesas”, Maria Velho da Costa contribuiu para essa obra maior do feminismo português, que atravessou fronteiras e foi abraçado por feministas de todo o mundo.

Como afirma a escritora Ana Luísa Amaral, “morreu Maria Velho da Costa, essa imensa escritora. A perda para a literatura é enorme, como é enorme a sua perda como pessoa — uma tristeza sem nome”.

Autora de uma vasta e poderosa obra, obteve vários prémios literários e o seu livro Myra, publicado em 2008, foi Prémio das Correntes de Escrita, nesse mesmo ano e recebeu o Grande Prémio da literatura em 2010.

Em 2002 foi galardoada com o Prémio Camões e em 2013 com o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. No discurso de aceitação do prémio afirmou: “Os regimes totalitários sabem que a palavra e o seu cume de fulgor, a literatura e a poesia, são um perigo. Por isso queimam, ignoram e analfabetizam, o que vem dar à mesma atrofia do espírito, mais pobreza na pobreza.”

Nascida em Lisboa, em 1938, Maria Velho da Costa faria 82 anos no próximo dia 26 de junho. Licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa, foi leitora do King’s College em Londres, secretária-adjunta da Cultura (1979) presidente da Associação Portuguesa de Escritores e adida cultural em Cabo Verde (1988-1991).

A morte não faz morrer Mulheres como Maria Velho da Costa.

Ficará sempre na nossa Memória.

E aqui ficam excertos do livro Cravo (1976),“Mulheres e Revolução”:

“O dia nasce, elas acendem o lume.

Elas cortam o pão e aquecem o café.

Elas picam cebolas e descascam batatas.

Elas migam sêmeas e restos de comida azeda.

Elas chamam ainda escuro, os homens, os animais e as crianças.

Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais.

Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo.

Elas põem a tranca no palheiro.

Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo.

Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar.

Elas arredam a coberta da cama.

Elas abrem-se para um homem cansado.

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado.

Elas alargam o cós das saias.

Elas choram a vomitar.

Elas talham cueiros.

Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga.

Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba.

Elas lavam os lençóis com urina.

Elas compram o lápis, a lousa e a pasta de cartão.

Elas espremem as tetas da vaca para um balde apertado entre as pernas.

Elas carregam o cesto de azeitonas à cabeça.

Elas sobem para um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe.

Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão.

Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia.

Elas batem à máquina palavras que não entendem.

Elas ficam absorvidas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato.

Elas queriam outra coisa.

Elas fizeram greves de braços caídos.

Elas brigaram em casa para ir ao Sindicato e à Junta.

Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.

Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.

Elas choraram no cais, agarradas aos filhos que vinham da guerra.

Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.

Elas disseram à mãe e à sogra que isso era antes.

Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa, a dizer-lhes como é.

Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.

Elas sentaram-se à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.

Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.

Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.

Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.

Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam. (…)

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