Medo

Apesar de morrerem mais de cento e vinte pessoas por minuto em todo o mundo (worldbirthsanddeaths.com) devido à fome, à morte natural, por doença ou acidente, a imprensa só relata óbitos por Covid-19. É triste saber que a atual epidemia já matou mais de trezentas mil pessoas. Porém, é assustador pressentir que um certo medo mergulhou milhões de outras num pânico geral. Percebamos que este é um dos resultados da ansiedade imposta pelo sistema, que ao longo dos últimos anos privou os Estados de ferramentas económicas e financeiras que deveriam proteger e tranquilizar os seus cidadãos.  

Em Portugal, o resultado podia ser pior! Estou convicto que o medo e o número de cadáveres abandonados no sistema nacional de saúde e em lares de idosos teriam sido bem maiores caso não houvesse uma maioria parlamentar de esquerda em Portugal. Estou convencido que, caso a direita tivesse permanecido governo, o processo de destruição do sistema nacional de saúde e da segurança social, de então, teria criado um cenário de horror proporcional aos consentidos nos Estados Unidos e Brasil. Basta ligar a televisão e ler os comentários nas redes sociais para percebermos que a falta de Estado não beneficia as famílias.

Não obstante, à medida que se enfrenta tal catástrofe sanitária, a afefobia tem tomado conta das pessoas e questões como “será a eugenia o caminho para salvar o mundo” começam a fazer parte das certezas dos indivíduos mais crédulos, lembrando-nos o que levou os fascistas ao poder durante a depressão sinistra da crise capitalista dos anos trinta. Passados mais de oitenta anos a mentira volta a falar a cada um de nós, arriscando-me a escrever que foi o excesso de livre arbítrio que nos trouxe até aqui. Até este tempo em que somos obrigados a coexistir com uma extrema direita (a democracia não é um sistema perfeito) que tenta ser forte criando conflitos entre pessoas do mesmo País.

A pandemia trouxe-nos mais incertezas acerca do futuro, projetando-nos para mais um ciclo económico (talvez juglar) de recessão, que criará enormes problemas de armazenamento, desemprego e outros tantos sarilhos (à data há petroleiros em alto mar parados, mais de 40% dos portugueses perdeu rendimento e mais de 60% cancelaram tratamentos médicos).

Os números do desemprego poderão ultrapassar os 25% em 2021, se contarmos com todas as pessoas, inclusive com os trabalhadores que normalmente não contam para as estatísticas oficiais (empregados sem contrato, inativos e inscritos no IEFP). Este universo de pessoas, que tem uma relação fragilizada com o mercado de trabalho, juntamente com grande parte dos portugueses, que têm um emprego de má qualidade, que são precários no dia-a-dia, sentem que o Estado não os protege; que o governo não representa genuinamente os interesses dos cidadãos. Que o parlamento não serve o povo! Intuem que o discurso radical anti-establishment, xenófobo e nacionalista os apoia e que contraria os interesses individuais e burocráticos. É por estas e por outras que o “sucesso” do autoritário e populista André Ventura, criatura antagónica, resultado da escola do Partido Social Democrata, tem vindo a crescer. É por isso que o seu discurso perverso, contra a ideologia dominante, está a desunir o povo e a mudar severamente o rosto de Portugal.

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