1º de Maio: A luta global – por Miguel Vital*

O 1º de Maio assinala, sem dúvida alguma, a globalização da luta dos trabalhadores de todo o mundo por melhores condições de vida e de trabalho.

No dia 1 de Maio de 1886 os trabalhadores dos Estados Unidos iniciaram uma greve pela conquista da jornada de trabalho de 8 horas diárias. Na altura o trabalho diário era de 18 e mais horas. Uma enormidade, uma exploração. Esta reivindicação visava libertar os trabalhadores de um regime de enorme exploração tendo como objectivo as 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de lazer e estudo para a valorização dos trabalhadores e a dignificação do seu trabalho.

Neste dia de há 134 anos a repressão abateu-se (tal como ainda nos dias de hoje) sobre os trabalhadores de forma violenta. Vários trabalhadores foram mortos durante uma carga policial. A repressão continuou nos dias seguintes e foram presos muitos activistas sindicais, cinco dos quais foram condenados à morte e executados por enforcamento.

A partir daqui o dia 1 de Maio ficou consagrado como um marco da luta global dos trabalhadores de todo o mundo pela dignificação do trabalho, pela exigência de direitos laborais, por salários mais dignos e também como uma afirmação de cidadania que em muito veio a influenciar a luta por direitos cívicos e justiça social.

Em boa verdade, esta não é uma luta do passado. Ela é também uma luta do presente e do futuro.

Pese embora todo o enorme avanço tecnológico, actualmente os trabalhadores de todo o mundo continuam a ser vítimas da exploração, com a distribuição da riqueza produzida concentrada num número cada vez menor de pessoas.

Um estudo da Organização Não Governamental Oxfam de Janeiro deste ano revela que 1% dos mais ricos do mundo detêm mais do dobro da riqueza possuída por 6,9 mil milhões de pessoas. Somente 2153 bilionários detêm mais riqueza do que 4,6 mil milhões de pessoas, o equivalente a 60% da riqueza mundial.

No tempo presente, a propósito das cíclicas crises do capitalismo provocados pelo sistema financeiro -que faz da usura o seu modo para extorquir os povos – ou por outras como a pandemia do COVID 19 – os trabalhadores enfrentam uma enorme ofensiva visando reduzir ou eliminar direitos socais, direitos de cidadania, direitos laborais e de organização sindical.

A contínua precarização do emprego, a chamada uberização* do trabalho é um processo de desregulação económica e dos direitos laborais visando duma vez por todas acabar com trabalhadores, passando todos a colaboradores, designação já hoje tão acarinhada por governos, grandes empresas e pela comunicação social dominante, mas que nada tem de inocente.

Seja qual for o grau de desenvolvimento tecnológica os trabalhadores terão sempre que lutar para que haja uma sociedade mais justa, com uma melhor distribuição da riqueza produzida por todos e pelo esbatimento das desigualdades sociais.

Os trabalhadores não se podem descuidar. Têm que lutar pela democracia, pelos seus direitos de cidadania, contra as pulsões securitárias que agitando medos e fantasmas pretendem anular direitos, atentar contra as liberdades para impor o pensamento único de que não há alternativas.

Os que não gostam do 25 de Abril também não gostam do 1º de Maio. Desiludam-se pois, todos quantos querem esvaziar e anular o sentido duma luta tão global como esta. O 1º de Maio significa uma luta com passado, com presente e com futuro.

* Miguel Vital – Técnico de Administração Tributária (aposentado) | Militante sindical | Escreve segundo a ortografia antiga.

Artigo originalmente publicado no blog O Navio de Espelhos.

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