Dia Internacional da Mulher – Para não dizer que não falei das flores

Não importa muito saber a razão exacta sobre a origem do dia da Mulher. Entre as greves de protesto de Nova York ou as manifestações na Rússia, ou mesmo muito atrás, há um longo e penoso caminho de insubmissão, resiliência e coragem.

Menorizadas e subalternizadas ao longo dos tempos, as mulheres foram sempre invisíveis para a história, relegadas para um papel de sombra do homem. Mas nas casas, nas filas de montagem das fábricas, nas lides campestres, nas trincheiras de diferentes conflitos, liberais, pela independência, anticoloniais, batendo o pé por salários dignos, pelo direito a ter voz activa nas decisões do seu próprio país, através das urnas, e também na sua própria vida,  elas foram rebeldia e firmeza.

Ligadas desde a Bíblia ao pecado, ao lado negro das coisas, tomadas por vadias, putas ou bruxas, sofreram a repressão do poder patriarcal ancorado na religião, subjugadas por ideologias conservadoras e moralistas. Foram vilipendiadas, torturadas, enfiadas em masmorras, queimadas em praças públicas para servir de exemplo. O poder, o saber eram-lhes interditos e, no entanto, sempre acharam uma fresta para romper as trevas.

É no trilho desta história de resistência e de  luta que deve ser assinalado o dia 8 de Março, reconhecido em 1977, pela ONU, como o Dia Internacional da Mulher.

O Dia Internacional da Mulher vem na senda do movimento sufragista – primeira onda do feminismo, nos finais do século XIX, que reivindicava o direito das mulheres ao voto. Vem também das greves nas oficinas e fábricas e nas lutas pelo pão de cada dia, na América e no outro lado do Atlântico. É o acumular das lutas das mulheres, fermentadas ao longo de séculos, pela igualdade de direitos e oportunidades,  por melhores condições de vida, contra a dupla exploração da sua força de trabalho, contra o domínio do patriarcado, contra a violência a vários níveis sobre elas exercida. .

Nada tenho contra as flores, mas o dia da Mulher deve ser, socialmente, um dia de luta e não de ofertas de gerberas e outros mimos, ou na organização de ateliês que nada mais fazem do que veicular estereótipos machistas que colam à condição feminina a ideia de fragilidade e futilidade.

Apesar dos avanços e conquistas, ainda há um longo percurso a fazer em prol da efectiva emancipação das mulheres. Elas são ainda, em todo o mundo, o alvo mais pronto e vulnerável: nas estepes onde grassa a fome, nos campos de refugiados onde são violentadas, nos palcos de guerra, nos países onde caem sobre elas as pedras da descriminação, onde ardem em fogueiras de preconceitos milenares, onde, ainda meninas, lhes é retirado ou mutilado o órgão do prazer porque isso só é permitido ao homem, onde são rejeitadas à nascença só por serem mulheres, onde são casadas à força ainda crianças, onde são lapidadas por qualquer comportamento que não segue os cânones do patriarcado ou pela sua orientação sexual.

Em Portugal, ainda existem casos de desigualdade salarial e sobre as mulheres recai, apesar de alguns progressos, a maior parte do trabalho doméstico, o tratar dos filhos, dos idosos e doentes. Os números de femicídios são um flagelo que nos atinge com violência em cada ano, uma mancha que nos envergonha. O assédio no espaço público e no local de trabalho é desvalorizado, a justiça está muitas vezes do lado dos agressores.

Por todas estas razões hoje é preciso ainda:

  • Eliminar a violência e os assassinatos de mulheres –femícidios, assim como exigir uma justiça não sexista e misógina que pare com a desculpabilização dos agressores e a culpabilização das mulheres.
  • Lutar pela igualdade salarial, contra o assédio sexual e moral; contra a utilização de argumentos escondidos para despedimento ou discriminação quando as mulheres estão grávidas ou na prestação de serviço à família.
  • Exigir respostas públicas para o incremento de serviços e redes de apoio, tais como creches, lares, cantinas e apoio domiciliário.
  • Pugnar por uma educação pública e gratuita não reprodutora de estereótipos e papéis de género, aberta e inclusiva, com currículos pedagógicos que visibilizem a História e as Lutas das Mulheres.

Por tudo isto, mais do que receber flores é preciso unir as vozes, erguer os braços, ganhar as avenidas! 

Jorgete Teixeira

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